quarta-feira, 12 de outubro de 2011

285

Sonhar em ti. A transformação de um corpo em sentidos. Toco-te levemente, sinto partes da tua pele. Escrevo os nossos nomes no que resta do calor apaixonado de uma madrugada que começa agora a florescer. A noite já esqueceu quem somos. Amanhã voltamos a ser quem fomos. Amantes de corpos abandonados numa cama que não sabe quem somos.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

283

Observo na noite negra a viagem que não planeei pela folha de papel branco pousada sobre a mesa. Ao longe o som do mar que embate com força nas rochas. Nos meus ouvidos o som do fundo de mar que embate com igual força nas minhas ideias. O nevoeiro infestado de solidões alheias sussurra nos meus ouvidos palavras que devo escrever e não esquecer. A mulher em forma de miragem ordena que não a ame. O coração tem formas e força de uma caixa negra de avião - não me deixa esquecer-te, não me deixa apagar-te.

domingo, 9 de outubro de 2011

282

Todo o processo que resulta na condição a que podemos chamar de paixão, contempla duas fases.
A vil e instantânea, resultado de uma projecção idealizada, e a crescente e inútil resultado da construção da primeira. Esta última, apesar de ser a mais duradoura é também a que menos trás à alma, e à arte. É vazia de sofrimento, sendo portanto inútil na criação perene e imortal do interior. A primeira por seu lado, infame e vazia de partilhas, é cultivada na auto-imaginação sendo portanto prejudicada pela segunda, e resultando na incapacidade de projectar a paixão no papel.
O recalcamento da segunda fase é a inteligência do artista. A vulgaridade da construção é vazia de detalhes de dor, sendo portanto inútil na criação. A construção segura, premeditada destrói a estética da dor, que deve ser experimentada e apreciada. Qualquer arte deverá ser cultivada na primeira fase.

sábado, 8 de outubro de 2011

281

Vivo nesse corredor de tempo onde nunca se sabe o que está ao fundo. A luz que lá devia estar, no fundo, já alguém desligou. Descontento-me com a companhia da escuridão e encontro na solidão uma réstia de força que me faz continuar a caminhar pelo corredor fora. Pelo caminho pequenas pedras marcam o caminho nos meus pés. Pessoas são coisa que desconheço desde muito tempo atrás. Quem? Não me lembro, não sei quem foi a última pessoa...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

280

Quando puderes, ser puderes, tira as tuas mãos da minha garganta. Que elas impedem-me de encher os pulmões com ar para te gritar, Basta!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

279

Sobre a mesa um cigarro pousado. Espera que eu o acenda desde que aqui me sentei. Entre a angústia de hora que não chega para me trazer certezas que não tenho a certeza de querer conhecer e o quotidiano fácil, ele continua ali pousado. O ritual pode começar a qualquer momento. Isqueiro, cinzeiro e cigarro todos lado a lado. A teimosia do nervosismo insiste para que não o faça apesar da vontade. Permanecer no estado de alerta, sem descontracção até que chegue o momento. A cada toque do telemóvel, a cada breve sinal de que algo possa acontecer a respiração pára. A hora que não chega. Sinto-me um condenado à morte no caminho do corredor. Já sei que acabará por aqui só resta saber quando.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

278

Numa rua que sabe todos os nomes, não passas despercebida. Numa rua que conhece todos os passos, todos os sons, os hábitos e costumes despertam os sentidos. Adormecido por tanto tempo o acordar não é sereno. Acordar depois de tudo e não sentir o corpo, não saber onde me encontro. Reconhecer a rua e não saber onde ela acaba. Uma sensação de vazio, uma rua sem nome e uma pessoa com tantos nomes.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

277

Queimam as palavras que seguras gentilmente entre os dedos. Ardem enquanto te preparas para me atingir com elas. Tento prender-te pelos cabelos às nuvens passageiras do nosso amor. Canto poemas que ainda não escrevi e que talvez não chegue a ter sangue suficiente para os escrever. Sou em ti como uma ilha perdida no oceano. És casa perdida na paisagem. Espreito-te em procura de uma luz, calor, um abraço que me tire da noite escura e fria.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

275

Deitei a cabeça sobre uma fotografia pousada na mesa. Procurava encontrar o tempo nela contido. Falhei. Falhei demasiadas vezes nesse tempo, continuo a falhar neste tempo. Continuo a falhar até mesmo para encontrar esse tempo. Onde se escondem as coisas que o tempo nos leva. Onde se guarda a memória. Onde estão os dias felizes que tardam em voltar. Onde estão as tardes de sol brando a queimar pele dos amantes regularmente sentados em esplanadas e jardins amando o sentimento de amar. Onde estou eu agora quando escrevo estas palavras. Tento penetrar a realidade da fotografia, quero voltar, quero viajar no tempo até lá e voltar a fazer tudo igual. Errar de novo, viver de novo e esquecer que viajei no tempo. Diz o povo que o que não tem remédio remediado está. Seja! Só quero voltar, só quero ver-te mais uma vez. Quero errar contigo. Quero ser errante contigo.

sábado, 1 de outubro de 2011

274

Afio a língua, mudo as cordas à viola. O tempo é marcado pelos passos da multidão em marcha. Uma multidão que marcha sobre cadáveres antigos. As carruagens amontoam-se, sem ordem nem classe. O choque é inevitável na hora da partida, uns sonham caminhar e cantar, seguir a canção, outros sabem que pensar não é fazer, e não esperam acontecer.