quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

355

Seria tão mais fácil que a palavra escrita gozasse de tanta frontalidade como as palavras que dizemos olhos nos olhos. Não teríamos de ultrapassar aquele aperto de barriga quando os dois corpos, próximos, tão próximos que por vezes se tocam. Voluntária ou involuntariamente uma mão passa na outra, um toque no cabelo, na face ou as pernas que se cruzam debaixo de uma qualquer mesa. Forçamos tantas vezes esse toque ocasional. Tão ocasional e tão especial que tem um sabor de vitória que se celebra solenemente numa solidão incompreendida porque a situação é estranha e desconhecida. O deslumbramento ocasional com as situações mais banais que chega a ser ridículo pelas formas que encontramos para encaixar essa pessoa no nosso quotidiano.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

353


Partiste com a chegada da madrugada e para trás deixaste um corpo perdido numa imensidão de tempo, odores e toques que ficam marcados a fogo. Já não sinto o teu corpo no meu nem sequer resta parte dos teus cheiros mas a brisa da manhã traz-te até mim com a suave lentidão de odores que se espalham pelas ruas da cidade. Acordar, a cidade sente-se a acordar nos pormenores de uma visão ainda demasiado pura e inocente para ser corrompida pelo brilho da noite. É precisamente isso. Abrir os olhos só com o chegar do sol para um novo dia permite que continues a acreditar que ainda é possível que as pessoas digam “Bom dia!” todos os dias, que se levantem sorridentes com a possibilidade de viver mais um dia. Não é pelos candeeiros da rua que se vão apagando em linhas sucessivas até que o último se extinga até ao cair do dia mas também não pode ser pela luz que entra pelo quarto sem pedir licença. Há algo de diferente no dia de hoje e não sei se tu foste a culpada… certo é que hoje alguma coisa está diferente.

domingo, 18 de dezembro de 2011

352

Não imaginam vocês o quanto frágil é a pérola do nosso peito. Nem imaginam vocês o quanto preciosas são as pedras que derramamos em vosso nome. Nem imaginam o quanto asnáticas conseguem ser as sereias, vivendo entre sonhos e pesadelos, entre momentos passados e futuros, criando ilusões continuas e magoas profundas. Novamente nos deixamos enganar pelo lobo, ingénua estrela. Conhecemos os nossos limites, conhecemos os sacrifícios em nome do bem-querer, mas novamente nos deixam cair na infortuna sorte. Ninguém sabe o quanto nos ardem os olhos de chorar areia. Ninguém conhece a profundeza da nossa pérola, nem o brilho das nossas pedras. É a mesma dor que nos agonia o corpo e no faz falecer a cada lágrima do oceano.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

349

Verso em linha contínua do eléctrico que continua a passar todos os dias à minha porta. O eléctrico que não traz nem o amor nem o desejo, somente a lembrança de longos passeios até ao mar. Entre o som da roda no carril, a buzina, os carros ao lado a passar e toda a cidade que vai ficando para trás. A correria de uma cidade que já pouco olha para si própria, as pessoas quase já não se desviam para deixar passar o eléctrico ou quase já não olham para ele como algo bonito. Transformado em mero objecto de transporte incluiu-se no seu quotidiano e agora é menos que o metro e que um qualquer automóvel. As suas linhas já pouco rasgam a cidade e são demasiado controversas para serem discutidas. Os miúdos já não se penduram nas grades traseiras do eléctrico para passearem até à praia. Trocado pelo tempo e esquecido pelas pessoas até o seu gemido gritado pelas rodas em contacto com o metal do carril tem de ser abafado com óleos e massas especiais para que não incomode as pessoas. Circulas como se fosse um favor que te fazem.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011