sábado, 22 de outubro de 2011

295

Nascemos todos os dias para aquilo que nos rodeia. Uma planta que hoje está ali e ontem não estava. Uma pequena mutação diária do nosso corpo. Barba, cabelos e pelos que crescem, pele que morre. Todos os dias uma pequena mudança, todos os dias um pequeno verso. Poesia do dia-a-dia em modo contínuo. Música que não pára de soar nas cabeças. Vontade muita vontade de enterrar mais um dia e ver o que o amanhã traz nas gotas de orvalho para me refrescar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

293

Quando a voz morrer, as palavras não forem mais escritas e o que sobre de mim se tornar em pó, essa poeira espalhada pelos ares fará as viagens que o corpo não chegou a fazer. Sobre o silêncio que não tem fim haverá as palavras entre nós, as proferidas e as não ditas. Sobre a história haverá estórias que um velho contará e que uma criança repetirá mais tarde. Sobre nós e sobre aquilo somos e fazemos dirás a verdade: conheci-te. Uma sensação de alegria e prazer de quem soube dizer ao mundo - eu estive aqui!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

291

Adormeço nos versos que canto para uma folha de papel em branco. Durante o sono enquanto sou empurrado de sonho em sonho, pela vontade de um inconsciente que procura uma realidade onde se possa inspirar, o dia, os dias retornam. Salto de cenário em cenário sem saber me encontrar. Adormeço dentro do sonho e a folha já lá não está. Desespero, tenho vontade de escrever... tenho palavras para te dizer e não te encontro. Concentro-me no desejo de uma folha branca. A carícia de uma caneta sobre as suas fibras, o toque sereno que rapidamente se agita. Sou eu em ti. O meu corpo sobre o teu. O doce sabor da tua tinta. Exaustão de palavras e letras a correrem como se estivessem em fuga. Uma porta. Rápido! Uma porta que as segure. A música de fundo... a música que não é daqui. Acordar. Sobressalto em respiração ofegante, a corrida que agora parece minha. Em olhar rápido descubro-te. Sobre a mesa a folha e a caneta repousam lado a lado, serenas.

domingo, 16 de outubro de 2011

289

Existes. Onde eu sou mais fraco, onde a dor mais me corrói. Existes. Não desapareces, és, simplesmente como só tu sabes ser. Existes. No mais frágil da minha existência, nas partes do meu corpo que nem eu sabia que não conseguia controlar. Existes. Sorris. Desmentes o meu mundo construindo novaS realidades. Olhas-me cegando-me. Beijas-me matando-me.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

287

A tristeza das ruas molhadas em dias cinzentos de inverno encharca os olhos de quem passa. Uma poça de água reflecte um eu que não reconheço. Essa tristeza das ruas, das casas abandonadas encharca-me a mim também. Contagia-me. Sei que estás de partida assim como esta chuva fora de estação. És um fruto do verão e sei que o outono te levará para longe. Matas a sede em dias quentes mas não sabes viver com chuva. Se te chamas assim não tentes passar por outra pessoa e quando a saudade vier escreverei sobre ela. Quando a dor vier escreverei sobre nós e quando o amor vier, apenas farei silêncio cobrindo os teus lábios com um beijo.