quarta-feira, 10 de agosto de 2011

222

Quando amei uma mulher foi me dito que seria trágico. Que esse amor iria suportar um sofrimento tal, capaz de me fazer fugir da minha própria sombra.

Quando amei uma mulher disseram que eu estava doente. Que teria de me medicar, e que esse tratamento iria travar o meu desejo.

Quando amei uma mulher era para ser passageiro. Com a idade esse impulso acabaria por desaparecer.

Mas na verdade ninguém me disse nada, porque ninguém nunca soube. E esse amor tornou-se em todas as coisas que ninguém diz mas todos interiorizam. E eu interiorizei, e incorporei, a tragédia, a doença, e a passagem. Hoje, ainda hoje, eu amo essa mulher.

Mas ninguém sabe....

shiuuuuuu!




segunda-feira, 8 de agosto de 2011

220

Trago comigo a primeira pedra do meu castelo. Roubei-a de uma outra vida labirinto.

domingo, 7 de agosto de 2011

219


A neblina da noite traz mistérios dos corações despedaçados, daqueles que torturados durante o dia acabam por padecer e esmorecer caídos num canto desta cidade. A neblina esconde tantas coisas desta cidade. Os amores proibidos de jovens adolescentes, os amores infinitos e poderosos que num segundo parecem querer levar-nos para a morte e no outro segundo já são pó do passado. A neblina abafa os choros como uma almofada de um ser antes amado e agora sofrido. A neblina desta cidade é tão intensa e tão forte que o seu abraço nos sufoca. Porque há mil coisas para dizer e ao mesmo tempo não há nada para dizer, porque embora a voz se torne escassa para tanto que há a dizer. Não se explica, apenas se sente.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

217


Quando os relâmpagos da tempestade cessarem o sol atravessará o que resta de um homem agora invisível. Página a página, letra a letra na esperança que durante a noite os sonhos tenham entregue aromas de uma existência a alguém capaz de o receber. Não é do amor que me despeço. O vento sussurra às árvores a intenção de contar toda a verdade à cidade. Há páginas que são um erro e se devem rasgar, há outras que se rasgam sozinhas, mesmo quando não queremos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

215


É o teu nome sussurrado pelo vento. O teu corpo que bate nas minhas janelas na ânsia de entrar. Busco o teu abraço na solidão fria de uma noite de quase inverno. Falta escrever o fim desta noite. Esqueço-me do teu sorriso poético, das tuas mãos em prosa, do teu beijo infinito escrito e repetido nas paredes da cidade. Encontro-te em todas as ruas e perco-me nas linhas do teu rosto. Atraso-me porque não sei se ainda tenho tempo para te chegar...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

213

O corpo, lugar de alma solitária vê-se a si próprio. A mente febril faz com que se liberte e paire sobre si. As noites seguem-se uma após outra e a libertação da mente tarda em chegar. Aprisionado na insónia a realidade funde-se com o sonho que nunca existiu. Em breve o sol apagará os rastos de mais uma noite e na memória só o pó da existência tardia se um ser inexplicável.