domingo, 12 de junho de 2011

163

Estas nuvens cinzentas não se dissipam. A chuva não pára de cair e o coração não pára de bater. A inevitabilidade da leveza do ser em dias tristes cercado pela cidade triste. Esses corpos que se arrastam pelas ruas inundadas de água e de desesperança. Essas rua que já não nos levam a lugar nenhum. Já não tem surpresas e já não fazem sentido porque não conduzem para o nosso encontro. Ensaio uns passos para circular, para te ocupar enquanto me ocupo na cidade triste.

sábado, 11 de junho de 2011

162

São trapos, restos de frio e medo. Já não servem, já não aconchegam. Pedaços que já cumpriram o seu papel e são agora inúteis, pó. São pedaços que já aqueceram o corpo de um velho, mas que agora aquecem o coração de uma criança. São Bonecas de Trapos que já vestiram alguém!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

161


Os livros são meros papéis em que pintamos os nossos sentimentos. Nessa escrita a tinta tende a ser o sangue e as lágrimas que se estendem em palavras inundam linhas ainda por preencher. As folhas que tenho agora à minha frente parecem-me incapazes para receber os segredos que gostava de te murmurar no ouvido. Sinto-me sozinho no meio de tantas páginas perdidas que se levantam da mesa à mais pequena brisa que invade esta sala. Tenho medo de desiludir o deus em que não acredito, que me leve a força das mãos e não consiga suportar o peso da caneta. Odeio tudo isto mas não sei como o mudar. Irrita-me a impossibilidade do não uso das palavras, dos silêncios contidos e das palavras estranguladas entre respirações abruptas. Dói o rasgar do papel como se da minha pelo se tratasse. Não há segredo no amor que não seja segredo para ele mesmo. Não há segredos escondidos em livros nas prateleiras do tempo e nunca haverá quem o impeça. Gosto de passar os dedos pelo papel e sentir nele a tua pele, gosto do sabor das tuas palavras que estremecem nos lábios e dos sorrisos carregados de beijos que ainda não se soltaram. Gosto de ti assim porque é assim que as histórias rasgam as amarras do coração e correm para se deitarem nas frias páginas. No fim escrevo o teu nome e o meu e em seguida risco-o com toda a força e toda a tinta que consigo despejar de forma que não os consiga voltar a ver. Liberto-me da raiva do tentar não gostar e de saber que mesmo riscados os nomes permanecem lá.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

159

Nas gotas de chuva que ao caírem no chão fazem estremecer o mundo e nas valsas que não são dançadas pelos corpos que se amam mas se deixam ignorar. Nos desencontros de pessoas que se chocam todos os dias e nas alegrias que me trazem tristeza.

terça-feira, 7 de junho de 2011

158

Cada frase, cada palavra vem dos meus profundo medos. Cada declaração é como se dividisse a minha alma contigo. Cada lágrima, cada sorriso, é um pedaço do que sou. O meu maior medo é o de ser feliz nessa altura em que o sangue ferve.

domingo, 5 de junho de 2011

156

Observar os que me rodeiam relembra-me uma parte de mim, que não existe mais, mas que esteve tão perdida como muitas vezes eles estão. Entendo agora como o mundo me atinge, como os atinge. A sensação de fracasso é um sentimento com o qual já me habituei a conviver, mas ao qual me recuso capitular. Agarro as minhas convicções, os sonhos e as vontades e misturo com delírios. Se a vida é uma passagem, tenho de a valorizar. Se hoje é dia de lutar, tenho de subir mesmo que seja mais fácil descer. Sentir a incapacidade não me desilude, mas sim compõe-me. Da desilusão nasce a força de continuar em frente, e dai renasce a vontade de mudar o mundo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

154

Deus criou a terra, por apenas se amar a si própria e a ideia de si projectada no homem.